segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O fantasma do zaino

Essa é daquelas pra ler em noite de lua grande, ao redor de uma fogueira. Convém deixar os pingos bem atados, pros viventes não sumirem, escagaceados!



O Fantasma do Zaino

Corria a lenda na terra
Que penava naquelas bandas
Um cavalo morto na guerra
Atravessado a golpes de lança

E todo vivente se benzia
De cruzada pelo cemitério
Que mui antigamente servia
De morada a mortos gaudérios

Diz que o zaino assombrado
Morreu pra salvar o dono
Mas era o taura, guasqueado
Que tinha o pingo por trono

Pois no campo santo jazia
Sem cruz, o infeliz ginete
Que nada mais carecia
Que a oração do seu flete

Assim as almas penavam
Morridas da mesma morte
Perdidos no limbo campeavam
Talvez no assombro melhor sorte

Certa noite um mais topetudo
Prometeu desvendar o espanto
E meteu-se de cavalo e tudo
Lá no meio do campo santo

O picaço que ia estacou
Quando ouviu longe um nitrido
Pois o torena se apavorou
E arrependeu-se de ter ido

Olhou assim meio torto
E lá no fundo do cemitério
Entreviu o zaino já morto
Metido no basto gaudério

Parecia esperar, escarvando
Que o ginete lhe remontasse
E já se via logo carregando
Pra onde o dono mandasse

Pois o metido meteu as esporas
Bem com vontade no picaço
E gritou “vamo simbora!”
Entransilhado de tanto cagaço

Contou o que viu no bolicho
Pra quem quisesse escutar
“Tem olhos de fogo o tal bicho,
Nunca mais piso por lá”

Por lá ninguém mais pisou
E a lenda grande que era
Ficou maior e firmou
E o lugar foi virando tapera

Vez que outra alguém conta
Que ouviu o grito “Carrega!”
E o ginete finado remonta
Peleando uma fantasma refrega

E todo começo de outono
Em noites de lua cheia
Se escuta o tropel do zaino
E o sangue gela nas veia



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