Essa é daquelas pra ler em noite de lua grande, ao redor de uma fogueira. Convém deixar os pingos bem atados, pros viventes não sumirem, escagaceados!
O Fantasma do Zaino
Corria a lenda na terra
Que penava naquelas bandas
Um cavalo morto na guerra
Atravessado a golpes de lança
E todo vivente se benzia
De cruzada pelo cemitério
Que mui antigamente servia
De morada a mortos gaudérios
Que penava naquelas bandas
Um cavalo morto na guerra
Atravessado a golpes de lança
E todo vivente se benzia
De cruzada pelo cemitério
Que mui antigamente servia
De morada a mortos gaudérios
Diz que o zaino assombrado
Morreu pra salvar o dono
Mas era o taura, guasqueado
Que tinha o pingo por trono
Morreu pra salvar o dono
Mas era o taura, guasqueado
Que tinha o pingo por trono
Pois no campo santo jazia
Sem cruz, o infeliz ginete
Que nada mais carecia
Que a oração do seu flete
Sem cruz, o infeliz ginete
Que nada mais carecia
Que a oração do seu flete
Assim as almas penavam
Morridas da mesma morte
Perdidos no limbo campeavam
Talvez no assombro melhor sorte
Morridas da mesma morte
Perdidos no limbo campeavam
Talvez no assombro melhor sorte
Certa noite um mais topetudo
Prometeu desvendar o espanto
E meteu-se de cavalo e tudo
Lá no meio do campo santo
Prometeu desvendar o espanto
E meteu-se de cavalo e tudo
Lá no meio do campo santo
O picaço que ia estacou
Quando ouviu longe um nitrido
Pois o torena se apavorou
E arrependeu-se de ter ido
Quando ouviu longe um nitrido
Pois o torena se apavorou
E arrependeu-se de ter ido
Olhou assim meio torto
E lá no fundo do cemitério
Entreviu o zaino já morto
Metido no basto gaudério
E lá no fundo do cemitério
Entreviu o zaino já morto
Metido no basto gaudério
Parecia esperar, escarvando
Que o ginete lhe remontasse
E já se via logo carregando
Pra onde o dono mandasse
Que o ginete lhe remontasse
E já se via logo carregando
Pra onde o dono mandasse
Pois o metido meteu as esporas
Bem com vontade no picaço
E gritou “vamo simbora!”
Entransilhado de tanto cagaço
Contou o que viu no bolicho
Pra quem quisesse escutar
“Tem olhos de fogo o tal bicho,
Nunca mais piso por lá”
Por lá ninguém mais pisou
E a lenda grande que era
Ficou maior e firmou
E o lugar foi virando tapera
Vez que outra alguém conta
Que ouviu o grito “Carrega!”
E o ginete finado remonta
Peleando uma fantasma refrega
E todo começo de outono
Em noites de lua cheia
Se escuta o tropel do zaino
E o sangue gela nas veia
Bem com vontade no picaço
E gritou “vamo simbora!”
Entransilhado de tanto cagaço
Contou o que viu no bolicho
Pra quem quisesse escutar
“Tem olhos de fogo o tal bicho,
Nunca mais piso por lá”
Por lá ninguém mais pisou
E a lenda grande que era
Ficou maior e firmou
E o lugar foi virando tapera
Vez que outra alguém conta
Que ouviu o grito “Carrega!”
E o ginete finado remonta
Peleando uma fantasma refrega
E todo começo de outono
Em noites de lua cheia
Se escuta o tropel do zaino
E o sangue gela nas veia

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