Se estivesse vivo, meu pai completaria por agora mais uma primavera. Longe de ser santo, era uma gaúcho andejo e teatino: sem pouso certo, vivia no pampa e bastava. Fez força pra partir e se foi cedo, mas já devendo pra morte!
Meu velho
Meu velho, guasca nativo
Se tivesse um pouco de santo
Ainda hoje estaria vivo,
Se não tivesse vivido tanto,
Se tivesse um pouco de santo
Ainda hoje estaria vivo,
Se não tivesse vivido tanto,
Passou a galope na vida
Jogando e perdendo da sorte
Que existência assim vivida
Peleando de frente com a morte
Jogando e perdendo da sorte
Que existência assim vivida
Peleando de frente com a morte
Taura como os de outrora
No pampa sempre faceiro
Mesmo nos tempos de agora
Tinha orgulho de ser campeiro
No pampa sempre faceiro
Mesmo nos tempos de agora
Tinha orgulho de ser campeiro
Conhecia bem as verdades
Das lidas da gente de fora
E mesmo quando nas cidades
Não descalçava bota e espora
Das lidas da gente de fora
E mesmo quando nas cidades
Não descalçava bota e espora
O cuchillo viejo, patriarca,
Atravessado no espinhaço
Bombacha, faixa e guaiaca
Me parecia um gaúcho de aço
Atravessado no espinhaço
Bombacha, faixa e guaiaca
Me parecia um gaúcho de aço
Muito longe e pouco perto
Não lembro de tempos compridos
Sempre te tive, por certo
Mas pouco te tive comigo
Não lembro de tempos compridos
Sempre te tive, por certo
Mas pouco te tive comigo
Foi preciso preencher memórias
Nos espaços de um campo vago
De momentos e de histórias
Que são fortes e ainda trago
Nos espaços de um campo vago
De momentos e de histórias
Que são fortes e ainda trago
Dom Oscar, mãos de tenaz
E também voz de trovão
Mesmo assim era capaz
De ser poesia e coração
E também voz de trovão
Mesmo assim era capaz
De ser poesia e coração
Quando novo, quadras de campos
Que perdeu por muito amá-las
E amores nem sempre são flores
Mas ainda é preciso regá-las
Que perdeu por muito amá-las
E amores nem sempre são flores
Mas ainda é preciso regá-las
Morou pelos quatro cantos
Mas só vivia na fronteira
Juntou nada e juntou tanto
Vida teatina, campeira
Mas só vivia na fronteira
Juntou nada e juntou tanto
Vida teatina, campeira
Me deixou de herança
Livros e uma velha boina
Saudades de uma infância
E uns versos de cordeona...
Viveu como quem sabe
Que nos pagos não se demora
Esgotou os “Deus lhe pague”
E mui temprano se foi embora
Livros e uma velha boina
Saudades de uma infância
E uns versos de cordeona...
Viveu como quem sabe
Que nos pagos não se demora
Esgotou os “Deus lhe pague”
E mui temprano se foi embora
E eu que não sou de reza,
Me peguei folheando o Evangelho
É que a alma as vezes pesa,
Mas quê saudade do meu velho!
Me peguei folheando o Evangelho
É que a alma as vezes pesa,
Mas quê saudade do meu velho!



