quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O Gaúcho e o Cavalo

Sempre torci o queixo para o livro "O Gaúcho" de José de Alencar. Afinal, que poderia um pisa flores como ele saber de nossa cultura? Terminei ontem de madrugada e, apesar de alguns exageros, típicos da época em que foi escrito, foi uma grata surpresa tê-lo conhecido finalmente.

As aventuras de Manuel Canho para vingar o pai e acalmar a alma são acompanhadas de perto por seus cavalos, a quem ele tinha como irmãos. E essa essência, de Centauro do Pampas, Alencar soube expressar muito bem. Com bem menos talento, por supuesto, fiz algum tempo atrás uns versos que agora compartilho. Ainda com a lembrança dos pingos literários Juca, Morena, Ruão e Morzelo! Que Deus os tenha, assim como todo flete pampeano, extensão e alma do gaúcho!



Se meu cavalo falasse

Tenho um cavalo de ouro,
Daqueles que não se esquece,
Mas tá partindo, meu mouro
Pois cavalo também envelhece!

Meu flete está me deixando,
Mas pra sempre vou lembrá-lo,
Vai meu pingo trotando,
No rumo do céu dos cavalos...

Não queria ver o momento
Do final desta parceria,
De rédea um pensamento,
Ah, que baita montaria!

Se o meu cavalo conversasse,
Quantas histórias contaria
Ah, se o meu pingo falasse,
Quem sabe o que ele diria...

"Troteei na pampa afora,
Paleteando muito boi brabo,
Já servi de carga e escora,
Mas sou forte e nunca me acabo

Cavalguei faceiro no corredor,
Levando no lombo o ginete,
Que sempre me deu valor,
E me tratava feito gente

Era bem mais que meu dono,
Pois era como um amigo,
Montava com tope e entono
E sempre contava comigo!

Nas correrias de marcação
Ou trotando rumo à mangueira
Nem precisa rédea na mão,
Quando a dupla é bem parceira

Quando se ia pros fandango,
As pilchas bem arregladas,
Levava na mão um mango,
Mas só pra fazer fachada!

E eu ia loco de bueno,
Pateando de cola alçada,
Faceiro feito sinuelo,
Desfilando pela estrada

Mas o tempo passa pra todos,
E passou pra mim também,
Vieram pingos mais novos,
Só me restou dizer amém!

Mas não me arrependo de nada,
E sempre vou confirmá-lo...
Tive a existência iluminada,
Que bom que nasci cavalo!"





 

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