quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Meu velho....

Se estivesse vivo, meu pai completaria por agora mais uma primavera.  Longe de ser santo, era uma gaúcho andejo e teatino: sem pouso certo, vivia no pampa e bastava. Fez força pra partir e se foi cedo, mas já devendo pra morte!



Meu velho

Meu velho, guasca nativo
Se tivesse um pouco de santo
Ainda hoje estaria vivo,
Se não tivesse vivido tanto,

Passou a galope na vida
Jogando e perdendo da sorte
Que existência assim vivida
Peleando de frente com a morte

Taura como os de outrora
No pampa sempre faceiro
Mesmo nos tempos de agora
Tinha orgulho de ser campeiro

Conhecia bem as verdades
Das lidas da gente de fora
E mesmo quando nas cidades
Não descalçava bota e espora

O cuchillo viejo, patriarca,
Atravessado no espinhaço
Bombacha, faixa e guaiaca
Me parecia um gaúcho de aço

Muito longe e pouco perto
Não lembro de tempos compridos
Sempre te tive, por certo
Mas pouco te tive comigo

Foi preciso preencher memórias
Nos espaços de um campo vago
De momentos e de histórias
Que são fortes e ainda trago

Dom Oscar, mãos de tenaz
E também voz de trovão
Mesmo assim era capaz
De ser poesia e coração

Quando novo, quadras de campos
Que perdeu por muito amá-las
E amores nem sempre são flores
Mas ainda é preciso regá-las

Morou pelos quatro cantos
Mas só vivia na fronteira
Juntou nada e juntou tanto
Vida teatina, campeira

Me deixou de herança
Livros e uma velha boina
Saudades de uma infância
E uns versos de cordeona...

Viveu como quem sabe
Que nos pagos não se demora
Esgotou os “Deus lhe pague”
E mui temprano se foi embora

E eu que não sou de reza,
Me peguei folheando o Evangelho
É que a alma as vezes pesa,
Mas quê saudade do meu velho!




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